{"id":4162,"date":"2018-09-04T09:04:54","date_gmt":"2018-09-04T08:04:54","guid":{"rendered":"http:\/\/cpm-portugal.pt\/WP\/?p=4162"},"modified":"2018-09-09T09:15:45","modified_gmt":"2018-09-09T08:15:45","slug":"carta-de-um-sacerdote-ao-new-york-times","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cpm-portugal.pt\/WP\/carta-de-um-sacerdote-ao-new-york-times\/","title":{"rendered":"Carta de um Sacerdote ao New York Times"},"content":{"rendered":"<p>Carta de um sacerdote cat\u00f3lico para o NEW YORK TIMES<\/p>\n<p>Caro irm\u00e3o e irm\u00e3 jornalista:<br \/>\nSou um simples sacerdote cat\u00f3lico.<br \/>\nEstou feliz e orgulhoso da minha voca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nH\u00e1 vinte anos que vivo em Angola como mission\u00e1rio.<br \/>\nVejo em muitos meios de informa\u00e7\u00e3o, sobretudo no vosso jornal, a amplia\u00e7\u00e3o do tema dos sacerdotes ped\u00f3filos, com investiga\u00e7\u00f5es de forma m\u00f3rbida sobre a vida de alguns sacerdotes.<br \/>\nFalam de um de uma cidade nos Estados Unidos dos anos &#8217;70, de outro na Austr\u00e1lia dos anos &#8217;80, e seguida de outros casos recentes&#8230;<br \/>\nCertamente isto deve ser condenado!<br \/>\nVeem-se alguns artigos de jornal equilibrados, mas tamb\u00e9m outros cheios de preconceitos e at\u00e9 de \u00f3dio.<br \/>\nO facto de pessoas, que  deveriam ser manifesta\u00e7\u00e3o do amor de Deus, sejam como um punhal na vida de inocentes, provoca em mim uma imensa dor.<br \/>\nN\u00e3o existem palavras para justificar tais a\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que a Igreja n\u00e3o pode deixar de estar ao lado dos mais fracos e dos mais indefesos. Portanto, todas as medidas que sejam tomadas para a prote\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o da dignidade das crian\u00e7as ser\u00e1 sempre uma prioridade absoluta.<br \/>\nTodavia, cria curiosidade a desinforma\u00e7\u00e3o e o desinteresse para milhares e milhares<br \/>\nde sacerdotes que se gastam para milh\u00f5es de crian\u00e7as, para muit\u00edssimos adolescentes e para os mais desvantajosos em todo o mundo!<br \/>\nConsidero que, ao vosso meio de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o interesse saber que, eu em 2002, passando por zonas cheias de minas, tenha devido transferir muitas crian\u00e7as desnutridas de<br \/>\nCangumbe para Lwena (em Angola), porque nem o governo se importava, nem as ONG&#8217;s estavam autorizadas. E penso que tamb\u00e9m n\u00e3o vos importa que eu tenha tido de sepultar dezenas de criancinhas, mortas na tentativa de fugir das zonas de guerra ou procurando regressar, nem que salvamos a vida a milhares de pessoas no M\u00e9xico gra\u00e7as ao \u00fanico posto m\u00e9dico em 90.000 Km2, e gra\u00e7as tamb\u00e9m \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e sementes.<br \/>\nN\u00e3o vos interessa tamb\u00e9m saber que nos \u00faltimos dez anos demos a oportunidade de receber educa\u00e7\u00e3o e instru\u00e7\u00e3o a mais de 110.000 crian\u00e7as&#8230;<br \/>\nN\u00e3o tem uma resson\u00e2ncia medi\u00e1tica o facto que, com outros sacerdotes, eu tive de fazer frente \u00e0 crise humanit\u00e1ria de quase 15.000 pessoas guarni\u00e7\u00f5es da guerrilha, ap\u00f3s a sua rendi\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o chegavam alimentos nem do Governo, nem da ONU.<br \/>\nN\u0101o faz noticia que um sacerdote de 75 anos, Padre Roberto, todas as noites percorra a cidade de Luanda e cuide dos meninos da rua, os leve para uma casa de acolhimento na tentativa de os desintoxicar da gasolina e que \u00e0s centenas sejam alfabetizados.<br \/>\nN\u00e3o faz not\u00edcia que outros sacerdotes, como o Padre Stefano, se ocupem em acolher e dar prote\u00e7\u00e3o a crian\u00e7as maltratadas e at\u00e9 violadas.<br \/>\nE n\u0101o \u00e9 de vosso interesse saber que Frade Maiato, n\u00e3o obstante os seus 80 anos, v\u00e1 de casa em casa confortando pessoas doentes e sem esperan\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o faz not\u00edcia que mais de 60.000, entre os 400.000 sacerdotes e religiosos, tenham deixado a pr\u00f3pria p\u00e1tria e a pr\u00f3pria fam\u00edlia para servir os seus irm\u00e3os num lepros\u00e1rio, nos hospitais, nos campos de refugiados, nos institutos para crian\u00e7as acusadas de feiti\u00e7aria ou \u00f3rf\u00e3s de pais mortos por SIDA, nas escolas para os mais pobres, nos centros de forma\u00e7\u00e3o profissional, nos centros de assist\u00eancia aos seropositivos&#8230; ou, sobretudo, nas par\u00f3quias e nas miss\u00f5es, encorajando as pessoas a viver e a amar.<br \/>\nN\u00e3o faz not\u00edcia que o meu amigo, Padre Marco Aurelio, para salvar alguns jovens durante a guerra em Angola os tenha conduzido de Kalulo at\u00e9 Dondo e no caminho de regresso \u00e0 sua miss\u00e3o foi cravado de balas; n\u0101o interessa que frade Francesco e cinco  catequistas, para ir ajudar nas zonas rurais mais isoladas, tenham morrido na estrada num acidente; n\u00e3o importa a ningu\u00e9m que dezenas de mission\u00e1rios em Angola sejam mortos por falta de assist\u00eancia sanit\u00e1ria, por uma simples mal\u00e1ria; que outros tenham morrido por causa de uma mina ao ir visitar a sua gente. No cemit\u00e9rio de  Kalulo encontramos os t\u00famulos dos primeros sacerdotes que chegaram a esta regi\u00e3o&#8230;nenhum deles chegou a completar os 40 anos!<br \/>\nN\u00e3o faz not\u00edcia acompanhar a vida de um sacerdote \u201cnormal\u201d na sua vida quotidiana, entre as suas alegrias e as suas dificuldades, enquanto gasta a pr\u00f3pria vida, sem fazer ru\u00eddo, a favor da comunidade pela qual est\u00e1 ao servi\u00e7o.<br \/>\nNa verdade n\u00e3o procuramos fazer not\u00edcia, mas procuramos simplesmente levar a Boa Nova, aquela que sem ru\u00eddo iniciou na noite de P\u00e1scoa.<br \/>\nFaz mais ru\u00eddo uma \u00e1rvore que cai do que uma floresta a crescer.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o fazer uma  apologia da Igreja e dos sacerdotes.<br \/>\nO sacerdote n\u00e3o \u00e9 nem um her\u00f3i, nem um neur\u00f3tico.<br \/>\n\u00c9 um simples homem que, com a sua humanidade, procura seguir Jesus e servir os seus irm\u00e3os.<br \/>\nNele existem mis\u00e9rias, pobreza e fragilidade como em cada ser humano; mas existem tamb\u00e9m beleza e bondade como em cada criatura&#8230;<br \/>\nInsistir de forma obsessiva e persecut\u00f3ria sobre um tema, perdendo a vis\u00e3o do inteiro, cria realmente caricaturas ofensivas do sacerd\u00f3cio cat\u00f3lico e \u00e9 disto que me sinto ofendido.<br \/>\nJornalista: procure a Verdade, o Bem e a Beleza. Tudo isto  o far\u00e1 nobre na sua profiss\u00e3o.<br \/>\nAmigo&#8230; pe\u00e7o-lhe apenas isto&#8230; Em Cristo,<br \/>\nPadre Mart\u00edn Lasarte sdb<br \/>\n\u201cO meu passado, Senhor, confio-o \u00e0 tua Miseric\u00f3rdia; o meu presente ao teu Amor; o meu futuro \u00e0 tua Provid\u00eancia\u201d.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o era sem tempo que chegasse uma mensagem como esta, mensagem que realmente vale a pena divulgar&#8230;<br \/>\nEsperemos que todos n\u00f3s cat\u00f3licos possamos fazer como contrapeso, n\u00e3o apenas partilhando esta mensagem, mas com o exemplo da nossa vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta de um sacerdote cat\u00f3lico para o NEW YORK TIMES Caro irm\u00e3o e irm\u00e3 jornalista: Sou um simples sacerdote cat\u00f3lico. Estou feliz e orgulhoso da minha voca\u00e7\u00e3o. H\u00e1 vinte anos que vivo em Angola como mission\u00e1rio. 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